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Crônicas que contam histórias de Campos do Jordão.

 

No tempo do Cassino - (Grande Hotel - Campos do Jordão) 


No tempo do Cassino - (Grande Hotel - Campos do Jordão)

Belo desenho sobre o Cassino do Grande Hotel - Década de 1940 - Publicado no Jornal "Folhetim da Serra" de 12/1979 - não consta autoria

 

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Feito!

Vermelho 27.

Preto 31.

Era a banca de roleta em delírio: luzes intensas, ágil movimentação de pessoas, que iam e vinham, em trânsito nervoso. Mulheres bonitas cruzavam o recinto, quase despercebidas, acariciadas pelos olhares de alguns poucos.

Grandes shows internacionais e a fina flor da música nacional e duas orquestras tocando, sem solução de continuidade. Alguém perguntou:

-Quem vai tocar hoje no show? É a Marlene, ontem foi o Edu da Gaita, um espetáculo! Mas não perca, semana que vem, a Lili Moreno!

Esse era o ambiente do Cassino Grande Hotel, em Campos do Jordão, em meados de 1945, um recinto extremamente luxuoso, frequência refinada, uso da gravata obrigatório, e tudo numa ordem irrepreensível.

Não havia nenhum tiroteio dos filmes americanos em Monte Carlo.

Iniciava o funcionamento do Cassino Grande Hotel, em setembro de 1945, que infelizmente, com a posse do presidente Eurico Dutra, foi fechado em maio de 1946.

O majestoso edifício do Grande Hotel fora inaugurado em 2 de setembro de 1945, e fora construído pelo interventor Adhemar de Barros, cujos propósitos eram descobrir Campos do Jordão ao Brasil, e por isso, além do ramo hoteleiro, visava a exploração do jogo como chamariz para uma frequência maior de pessoas, nos altiplanos da Mantiqueira.

O Grande Hotel dava início ao ciclo do turismo na história da Estância de Campos do Jordão.

Conta-se, porém, que não foi fácil a instalação, desde logo, do Cassino: a problemática do tratamento da tuberculose era o entrave – maior para o funcionamento do jogo em Campos do Jordão.

Intensos movimentos foram feitos na Estância, no sentido de sensibilizar o Governo Federal para o óbvio ululante – a instalação de um Cassino, na Estância, em nada prejudicaria o combate e o tratamento da tuberculose, e nem estes aquele, porque os enfermos do pulmão viviam confinados em sanatórios, sem permissão para footings noturnos.

A luta foi intensa, mas vitoriosa.

É que por volta de abril de 1945, visitava Campos do Jordão, o inventor federal em São Paulo, Dr. Fernando Costa, ocasião em que fora homenageado pela Companhia de Hotéis de Campos do Jordão, empresa que, ganhando concorrência pública, explorava o Grande Hotel, cujo edifício era e continua a ser do governo de São Paulo.

Durante o evento, o inventor Fernando Costa colocou-se à disposição da comunidade jordanense, permitindo que Henrique Hillebrecht e Cid Castro Prado, formulassem o pedido que reproduzia anseio geral na estância: a liberação em Campos do Jordão.

Não deu outra. Um mês após a visita, mais ou menos, a Empresa Paulista de Diversões Públicas Ltda., que explorava os Cassinos da Pampulha (Belo Horizonte), Atlântico (Santos), Urca e Copacabana (Rio de Janeiro) e Icaraí (Niterói), subiu a Serra da Mantiqueira, trazendo todos os equipamentos de jogo e iniciando as atividades do Cassino Grande Hotel, em Campos do Jordão.

Em troca do uso das instalações do Grande Hotel, a empresa pagava o preço do arrendamento do Estado, mantendo ainda, as orquestras e a boite em funcionamento.

Foi uma época de loucura e fastígio. Nunca ocorrera tanto dinheiro na Estância.

Havia um exército de pessoas trabalhando no Cassino, exercendo as mais diversas funções: chefes de sala, chefes de bacarat, campista e roleta, pagadores, groupiers, ficheiros, changers, porteiros, valetes, motoristas, zeladores, chapeleiros, médicos, policiais, eletricistas, músicos e artistas.

Era uma estrutura afinada e homogênea, funcionando dinamicamente para a exploração do jogo. No triste e grande salão, onde, atualmente, há mesas de snoocker, e aparelho de televisão, em sombrio ambiente, no passado regorgitava-se de tensão e emoção, de gente elegante, parceiros às pampas, curiosos, pescadores de curiosidades e paqueradores.

Quem poderia imaginar que aquele triste salão teve sua época de luzes e de glória?

Exatamente naquele local, funcionava em cada canto, uma modalidade de jogo; num canto a roleta, n’outro, a campista, mais além o baracat e ao lado, o carteado.

Na roleta, a mais insinuante, funcionavam pagador, dois ficheiros, boleiro e olheiro, onde cada qual tinha função específica; o pagador contava e pagava; o ficheiro manipulava as fichas; o boleiro acionava a eletrizante bolinha e o olheiro fiscalizava, por trás do pagador, a lisura do comportamento dos protagonistas.

No bacarat, campista e roleta, o comandante da banca era chamado de groupier e o changer o abastecia de fichas, recolhendo o que sobrava, e suprindo, quando faltava.

Finalmente, os valetes com suas vassouras especiais, recolhiam tudo que caía ao chão, mantendo-o sempre limpo e luzidio.

Havia duas exigências para entrar no Cassino: gravata no colarinho e atestado médico na mão.

Aliás, Álvaro de Freitas Damas, que era o leão de chácara, e depois que foi promovido a ficheiro, passara o cargo a Paulo Rios, conta que não haviam incidentes de qualquer espécie, o ambiente era de muito respeito e a venda de bebidas alcoólicas, proibida.

O Cassino Grande Hotel, injetou vultuosas importâncias de dinheiro então pobre e desvalida Estância, como nunca se vira antes, em qualquer tempo de sua história.

O gerente da Empresa Paulista de Diversões era Jayme Redondo, o tesoureiro, Joaquim Soares Ferreira e o caixa, Alaor Junqueira.

O dinheiro corria fácil.

O Hotel, permanentemente cheio, não conseguia abrigar todos os funcionários do Cassino, e então foi necessário alugar a Pensão Carlos, que fora de Carlos Trannmuller. Já então denominada Pensão Santista, onde atualmente funciona o Hotel Britânia em Vila Capivari, e além dele, o Hotel Brasil, em Vila Abernéssia.

Todos se beneficiavam com as grandes somas de dinheiro, injetadas na praça: as casas comerciais, os funcionários, os banqueiros, o Hotel, a Ferrovia e até os sanatórios, pois conta-se que, semanalmente, o gerente Jayme Redondo, saía pelos sanatórios afora, distribuindo contribuições do Cassino.

Havia um contato da Empresa Paulista de Diversões no Vale do Paraíba: era Fued Boueri, que agenciava parceiros (jogadores), e a demanda foi de tal ordem, que, o Cassino contratara automotrizes da E.F. Campos do Jordão, que, em transportes especiais, trazia passageiros do Vale até o Cassino, devolvendo-os em seguida, tudo gratuitamente.

A dificuldade era única: “passar no raio X” a lotação dos bondes de cerca de 50 pessoas, que formavam filas e filas...

Conta Felício Raimundo Netto que o ambiente era requintado, não encontrando paralelo com os Cassinos de hoje, citando, como exemplo, os do Paraguai, onde visitou, frequentados por crianças e pessoas embriagadas.

Esporadicamente, alguém perdia uma fortuna, e alguns poucos andaram vendendo automóveis e seus negócios para aplicação no “investimento emocionante”.

Isso não era regra e se circunscrevia aos parceiros visitantes, porque o pessoal da terra, que jogava, era muito pequeno, uma meia dúzia.

Relata Hans Hillebrecht, atual presidente da Cia. de Hotéis de Campos do Jordão, que o Cassino nos anos 40 era relativamente pequeno, e seu momento financeiro não era coisa excepcional, reconhecendo, porém, que revolucionou, economicamente, a vida da Estância.

Miss Karita, conta Felício, fora funcionária da Cruz Vermelha Internacional, na Inglaterra, na II Guerra Mundial, e desembarcando em Santos, viera logo a Campos do Jordão, onde ficou hospedada, durante 3 meses, no Grande Hotel.

Recebia seus vencimentos em libras esterlinas e jogava sempre, tendo ingressado no folclore do Cassino por uma peculiaridade: tudo o que ganhava nos jogos distribuía aos empregados.

Era tratada na palma da mão.

Um dia, ou melhor, uma noite, Miss Karita ganhou 32 contos de réis, uma fortuna naquela época. Desatou a rir, a rir, a rir tanto, que não aguentou: acabou urinando pernas abaixo, copiosamente, sentada mesmo.

Foi um Deus nos acuda, um corre-corre.

Rápido, veio um valete enxugar o xixi que percorria o salão.

A distribuição naquela noite deve ter sido bem maior...

O Cassino Grande Hotel funcionava, diariamente, das 15 às 19 horas, era a matinê, e à noite das 21 horas às 2 da madrugada, e se por algum motivo, era necessário ultrapassar o horário, logo se consultava o fiscal federal, que recolhia emolumentos do Governo.

O transporte da cidade para o cassino e o retorno aos lares dos parceiros locais, era oferecido graciosamente, e seu motorista era Miguel Lopes Pina.

Para se ter uma ideia do volume de dinheiro, na época do Cassino, basta dizer que, em uma só noite, a renda fora de 100 contos de réis, e em uma outra sessão, um membro da família Scaff perdera igual importância no carteado.

Numa outra noite, o parceiro recuperara com lucro, ganhando 120 contos de réis e mais 92 contos em cartada subsequente.

A menor ficha custava 5 mil réis, e a maior 1 conto de réis.

Os funcionários do Cassino eram bem remunerados, pois além do ordenado fixo, recebiam propinas, que era distribuída, quinzenalmente, fazendo jus o ficheiro a 1 ponto, o pagador a 2 pontos e o gerente e tesoureiro a 3 pontos.

Um ficheiro ganhava, além do ordenado, cerca de 4500 contos de réis, de propinas, cuja distribuição obedecia, a critérios pré-estabelecidos.

Interessante notar que, quando o empregador gritava: “Caixinha, tantos cruzeiros”, todos os funcionários, em coro, onde estivessem, respondiam um grande “obrigado”.

Era um “obrigado” do tamanho de um elefante. Também pudera...

Funcionavam como médicos no Cassino Grande Hotel os Drs. Francisco de Moura Coutinho Filho e Antônio Nicola Padula.

O policiamento era feito pelos investigadores Condelac Chaves de Andrade, Júlio Oscar de Castro Neves e Servino de Oliveira.

Apesar da entrada franca, o ambiente era fino e luxuoso, e porque não se permitia o consumo de bebidas alcoólicas, as ocorrências policiais eram insignificantes.

Conta-se que o Cassino fazia uma restrição: não era permitida a entrada de pessoas de cor. Um dia, houve um quiprocó. O gerente chamou o porteiro, Álvaro de Freitas Damas, dono de gigantescas mãos e advertiu-o sobre a presença de uma pessoa de cor, no interior do Cassino.

- Mas o homem é da polícia, “seo” Jayme. É o investigador Servino!

- Não me interessa! Vá falar pra ele que não é permitido!

Álvaro titubeou, mas foi. Explicou, argumentou, e com muita diplomacia, invocou os “critérios da Casa”. Não houve dúvida: o investigador Servino concordou plenamente e acabou dizendo:

- Tudo bem “seo” Álvaro, eu fico lá fora, e se acontecer alguma coisa, o senhor me chama...

O episódio se repetiu, certa feita, com um motorneiro da E.F. Campos do Jordão, Deu uma confusão louca.

Os shows do Cassino Grande Hotel, constituíram um Capítulo a parte, pela excelência de suas apresentações e pelo nível de seus músicos e artistas.

Havia dois conjuntos que se revezavam: um de brasileiros e outro de alemães aprisionados, oriundos do navio Windhuk.

Em todo fim de semana, havia grandes figuras artísticas se apresentando, como Marlene, Trigêmeos Vocalistas, Lili Moreno, Edu da Gaita, Garoto, o rei do Violão, Romeu Feres, cantor de músicas internacionais.

Apresentaram-se no Cassino a cantora Zilah Chaves, a soprano Glória Thomaz, o humorista Zé Fidelis, Jorge Murad, a cantora Nelly Ferri, os acrobatas Alfred and Frandel, a cantora Laura Suarez, os acrobatas Turand Brothers, o cantor Eduardo Garcez, o humorista Haymond, a cantora Cléa Marion, o mágico João Justino da Rocha Netto, a cantora Cléa Barros, o ventríloquo Humberto Simões, o cantor humorista Januário de Oliveira e os malabaristas Irmãos Martim.

Eram todos nomes de expressão artística na época, que se apresentavam em fim de semana, ficando hospedados no Grande Hotel.

A Cia. de Hotéis de Campos do Jordão S/A tinha como sócios majoritários o velho Henrique Hillebrecht, e sua esposa, dona Anna, seu irmão Frederico, e seu filho Hans Hillebrecht.

O presidente da Cia. era Cid Castro Prado, tabelião em São Paulo e grande amigo da família, e que, para aquele cargo fora escolhido em virtude da delicada situação dos alemães, na época, em tempo de guerra.

Quando em maio de 1946 o presidente Eurico Gaspar Dutra determinava o fechamento de todos os cassinos no País, houve geral consternação em Campos do Jordão: não tanto para o Grande Hotel, que já adquirira renome e fama, e que continuava, sempre, cheio de hóspedes.

É que desmontara-se uma gigantesca estrutura geradora de dinheiro, que alimentava a larga faixa da população jordanense, prejudicando, imediatamente, os funcionários, e por via de consequência o comércio tímido e raquítico, que, àquela época faturava milhões de contos de réis.

Foi uma tristeza.

Até hoje fala-se com profunda saudade do Cassino Grande Hotel.

Não só por cauda do dinheiro que corria, perdulariamente, mas pelo febricitante movimento, o espetáculo artístico sem paralelo e pelo ambiente de vida, luz e grande beleza.

O Cassino de Campos do Jordão, foi um episódio de ouro da época dos anos 40, quando o nascente turismo jordanense ensaiava seus primeiros passos.

O reestabelecimento do Cassino, hoje, seria um mal ou um bem?

Pedro Paulo Filho

História publicada no Jornal "Folhetim da Serra", dezembro de 1979 (sem o nome do autor.)

08/12/1979

 

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